Sentado
em seu lugar habitual, num banquinho da varanda que dava vista para a serra que
tantas lembranças lhe trazia, estava o velho Chico. Sozinho absorto em seus pensamentos,
como sempre macambuzio, só que desta vez de maneira diferente. Quem olhava
notava algo estranho, não pitava seu cigarrinho, apenas fitava os olhos para o
horizonte. Ninguém ousava interromper esse retiro pessoal.
Velho
Chico que em outros tempos era conhecido pela sua bravura. Caboclo forjado pela
natureza, a qual conhecia como a palma de sua mão. Nascido pelas mãos
abençoadas de Dona Manu, uma índia velha que aprendeu o ofício, quando ainda
vivia na aldeia e depois que veio para a cidade continuou ajudando a trazer ao
mundo meninos e meninas. Dizem que não permitia que nenhum deles deixasse de
ver a luz. Quando as mulheres se contorciam a velha cantava rezas e só parava
no momento que o choro rompia o ar. Foi assim que Francisco dos Anjos veio ao
mundo.
O
nome do menino foi uma homenagem ao rio que cortava a região, o São Francisco,
pois sua família morava em uma de suas cabeceiras, numa tapera de chão batido e
coberta de sapé. Neste ambiente crescera o menino. Todos lhe chamavam de
Chiquinho da Mena. Filho de João dos Anjos e Filomena Maria de Jesus. O menino
era muito sabido, olhos curiosos e de tudo queria saber. Os pais diziam que
seria doutor. Entretanto o destino lhe reservara outras artes. Seu pai foi
assassinado por causa de uma disputa de terra e sua mãe caiu na pinga para
suportar os dissabores. Seus irmãos caíram na vida e deles ele nunca mais soube
notícias.
O
enredo da vida do menino iria mudar bruscamente. De fazenda em fazenda
trabalhava de sol a sol por comida, pouso e uns poucos trocados. O tempo passou
e o menino tornou-se homem. Moldado pela força da terra e do sofrimento
tornou-se duro, carrancudo, tinha pouca leitura, um capial sem estudo, que mal
rabiscava umas linhas. Mas conhecia a escola da vida. Falava pouco, impunha
respeito, pois aprendeu a arte das armas, jagunço tornara-se, e o mais temido
daquelas passagens.
A
fama de Chico Parabelo, como era conhecido, corria toda a região. Prestava
serviço para os políticos e coronéis. Ninguém ousava desafiá-lo. Numa briga era
exímio com a peixeira. Ao chegar a uma venda nem precisava dizer alguma coisa,
todos se aquietavam. Bebia o seu trago, acendia o seu cigarro de palha e ficava
fitando o horizonte. Calado como chegava, assim também saia.
Chico
só não contava que seria vencido pela arma mais poderosa que possa existir, o
amor. Viajando no lombo de seu cavalo deparou com a figura mais bela que havia
visto. Um sorriso e um olhar hipnotizou a fera.
-
Bom dia moço! Se achegue e beba água.
Assim
disse Dôrinha, como era conhecida Maria das Dores, morena cor de jambo, olhos
negros, cabelos longos e a boca carnuda, uma linda mulher. Meio sem graça Chico
apeou de seu cavalo e foi até a bica onde se encontrava aquela que mudaria seu
destino.
O
cafuzu desajeitado, desarmado pela seta da paixão, falou com ela
monossilabicamente:
-
Dia moça!
-
Donde vem? Perguntou ela.
-
Das banda do veio Chico.
-
Faz o quê por aqui?
-
Tô de passagem.
Ela
percebeu que ele não era de muita prosa. Deu-lhe água e disse o seu nome. Ela
também lhe falou que andava léguas para lavar a roupa e encher as moringas
d’água, pois água era muito difícil por ali. Ele não tirava os olhos dela,
estava enfeitiçado, isso nunca havia acontecido. Conhecia a vida, as mulheres,
mas igual a esta nunca tinha visto. O coração bruto amoleceu e sentiu pela
primeira vez a sensação do medo e da fragilidade. Num ímpeto falou algo que
jamais pensou em dizer:
-
Moça, tu é solteira?
-
Sim. Respondeu ela
-
Então sobe na minha garupa, pois irei até sua casa e falarei com seus pais.
Quero que seja minha mulher.
-
Não tenho pai nem mãe, não. Moro com minha madrinha.
-
Sobe que eu falarei com ela.
Ela
pegou as trochas e as moringas e foi com ele. Calado pelo caminho viajava nas
ideias. Nunca lhe passara pela cabeça arranjar mulher para fazer a vida. Assim
foi pelo caminho até chegar ao vilarejo, onde morava Dôrinha. Sua madrinha
estava à porta limpando feijão e a moça gritou:
-
A bênção madrinha.
-
Deus te abençoe filha, quem é o estranho?
-
É Chico.
-
Como é que ocê monta na garupa de homem que não conhece?
-
Madrinha, ele quer casar comigo.
-
Minha filha, que história doida é essa?
Nesse
momento Chico desce do cavalo e com voz solene diz:
-
É isso senhora, ela vai ser minha mulher.
A
velha desconfiada manda que entrem e expliquem melhor aquela doidera. Entraram
e depois de muita conversa chegaram a um entendimento. Ela arrumou os seu pertences, que não era
muito e na manhã seguinte, após receber a bênção da madrinha e com lágrimas de
gratidão monta na garupa daquele que seria a razão de seus dias.
Na
primeira capela que encontraram selaram o seu compromisso, com as bênçãos de
Deus. Amaram-se, firmaram pacto de união e devoção. Chico deixou o passado para
trás, tinha economizado dinheiro e com ele comprou uma terrinha e botou roça.
Aposentou as armas, trocando-as pela enxada. Trabalhava com afinco, suava o
corpo no calor do dia e de noite se refrescava nos braços da amada.
Logo
veio o primeiro menino, que foi batizado de António, o Toninho do Chico.
Passado algum tempo veio Sebastiana, depois João, Raimundo e Isaura. Cresceram
sem conhecer o passado infame do pai. Com ele aprenderam a valorizar a terra e
a vida. O pai sonhava para eles aquilo que não pôde ter, o título de doutor.
Para isso trabalhava e economizava. Os filhos já estavam moços. As moças tinham
pretendentes. O mais velho foi para a capital estudar, logo iria os outros.
O
destino mais uma vez armava uma das suas. Dôrinha estava grávida, era o último
rebento e também o seu último ato. O menino demorava para nascer, a parteira
apelava para todos os santos, e nada acontecia. A mãe agonizava. Chico na sala
desesperava-se e não tinha coragem de presenciar a batalha, justo ele que fora
tão valente. De repente, um choro como se fosse um brado. As lágrimas lhe
vieram, as pernas ficaram bambas, pois pressentia algo ruim. A parteira saiu
cabisbaixa e lhe disse:
-
O menino é forte e belo.
Chico
estava imóvel e com a voz embargada, perguntou:
-
E a minha Dôra?
A
mulher respondeu com voz trêmula:
-
Entre, ela tá muito fraca e quer lhe falar.
Um
ar de suspense e de tristeza invadia o lugar. Algo não estava normal. A cabeça
do Chico estava atordoada e não sabia o que falar. Então entrou no quarto e viu
sua mulher com os olhos semicerrados, com a criança ao lado. Aproximou-se e
tocou-lhe a face molhada e a beijou. Ela quase sem voz lhe disse:
-
Te amei desde o momento em que te vi naquele cavalo e sabia que você seria o
meu homem.
Com
a voz cada vez mais enfraquecida e quase sussurrando lhe falou:
-
Amor meu, cuide deste menino, ele é a minha última obra, obra do meu amor.
O
valente desmoronou e deu um grito desesperado:
-
Não, não, você é minha metade, sem você não viverei. Deus por que isso? Será o
castigo pelos erros do passado?
Ela
ainda balbuciou:
-
Querido, Deus está lhe dando um presente, uma vida. Vivi com você todos os meus
sonhos. Te amo, amo, amo...
Fechou
os olhos e não mais abriu. Naquela tarde encerrou a cena. Ninguém conseguia
dizer coisa alguma, apenas choravam. Chico ajoelhado na beira da cama, chorou
sua dor e fez uma jura: faria o que havia prometido, tornaria seus filhos
doutores e ao menino recém-nascido daria o seu nome.
Os
anos se passaram, ele se tornou recluso. As moças casaram-se e foram morar na
cidade. Os moços mais velhos se formaram e doutores se tornaram. O menino Chico
cresceu e um dia também arrumou as malas cumprindo o destino que lhe fora
reservado. Herdara do pai a paixão pelas armas e militar se tornou.
Agora,
sentado na varanda, o enredo de sua vida, lhe veio à mente e com ele a saudade.
Está fazendo oitenta e seis anos e é dia de visita, pois foi parar num asilo.
Filhos, netos e bisnetos viriam lhe visitar. Ele, porém estava absorto em seus
pensamentos. Vestido com o terno de festas, de repente se levanta, anda até o
portão, no momento em que sua família estava chegando. Abriu, começou a andar e
deu um grito, último ato de seu enredo:
-
Dôrinha, flor minha, estou indo!!
Ali
caia para não mais se levantar. Essa é a história do velho Chico, personagem
comum de muitos enredos, que fizeram a história de nosso povo.
José Geraldo da Silva
Professor parabéns seu blog é muito boooom, estou lendo Velho Chico. Conto muito com a sua ajuda viu Beijos o senhor é um exemplo e merece todo respeito Ass: Ana Paula Macedo 1ºA
ResponderExcluirÓtimo conto! Parabéns!
ResponderExcluirboa professor
ResponderExcluiroi professor sou seu aluno e gostei muito da historia . sou o Claudio sala 3 do Wilmar 7°a
ResponderExcluiradorei professor!!!
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirMuito bom a historia!Gostei muito sou o Vitor do 7° ano D
ResponderExcluirMtoo boaa essa história professor
ResponderExcluirMe emocioneei
Excelente conto. Rico no contexto Nós remete a desbravar os pensamentos na vida no iterior. Vida matuta.
ResponderExcluirParabéns Prof. Geraldo, se segurem os membros da academia de letras para não perderem suas cadeiras.
Prof. Warley
Parabéns geraldo!
ResponderExcluirAdorei o seu conto professor!!! Eu nunca gostei de ler tanto, adorei seus outros contos e história.
ResponderExcluirBeijos!
Sou eu o Samuel 7°E Ótima história professor
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