sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O TEMPO



Parado, sentado, calado
Contido, reprimido, ferido
Ensimesmado, acabrunhado, atado
Perdido, embebecido e enraivecido
Assim me sinto diante do tempo
Tempo que poda as esperanças
Tempo que anima o esperar
Tempo que serve como droga
Para curar a ansiedade
De se esperar, de acreditar e avançar.
Sua passagem leva o vigor
Leva o melhor da flor
Suga a essência juvenil
Forja a coroa da maturidade
Tinge de branco os fios como sinal
De que a jornada está no final
Marca o olhar, o sorriso.
Sem se preocupar com nossa vontade
Ah! O tempo, inimigo dos apressados,
Dos desenganados
Amigo e esperança dos que sabem lutar
Porém não se pode ficar parado
Diante de o seu passar
Porque ele não espera
E leva as oportunidades dos que não
Sabem agarrá-las e aproveitá-las
Daqueles que não sabem aproveitar
O tempo que é próprio para se plantar
E sabem que o tempo perdido
Não pode mais voltar
Diante disso, é viver todo o tempo
Sem perder tempo.

José Geraldo da Silva


CADEIAS




Encadeados em quadrados
Por sentimentos enquadrados
Encadeados por todos os lados
Por elos que foram forjados
Na forja alimentada pelo fogo
Da impaciência, da intolerância, da ignorância.
Que solidificaram, endureceram
E obscureceram a liga mais nobre
Liga constituída pela bondade,
Lealdade, amizade e verdade
Forja que aquecida depurou
Apenas a liga que forma cadeias
Cerradas por cadeados por todos os lados
Aprisionando os sonhos alados
Como se fosse Pégaso amarrado
Sem poder voar e levar os sonhos encantados
Quebrar cadeias é viver de verdade
É sentir ser
É ser sem ser encadeado
Enquadrado no quadrado
Encadeado por todos os lados.

José Geraldo da Silva


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

PASSANDO O TEMPO




 

Há momentos em nossas vidas que é necessário parar um pouco para uma reflexão. O ano passado já ficou no passado, o mundo não acabou como previam os místicos, não realizamos tudo aquilo que projetamos, entretanto muitas coisas boas aconteceram, e nem sequer paramos para agradecer. Nessa louca vida que levamos, mal acabou o ano e já fazíamos planos para o próximo, enfim ele já começou, então o que fazer?

Temos muito o que fazer, planejar as ações para que se concretizem os novos projetos, rever outros que ficaram pendentes e começar a agir, pois o tempo voa e essa vida estressante pode consumi-lo de forma avassaladora. Infelizmente acabamos sendo escravos dele. Fazemos tudo na base da correria, e sempre temos a sensação de que nos falta tempo.

Nessa gana de fazer sucesso, de conquistar e de realizar os objetivos traçados não paramos para observar que ele, o tempo, pode ser bem administrado. É comum alguém dizer que não tem tempo para nada, que gostaria de ler um livro, mas não consegue, que gostaria de passear mais, de viajar de ter mais tempo com os amigos e a família. Estamos sempre estressados e cansados.

Ao parar para fazer esta reflexão, descobri que há muitas coisas boas ao meu redor que eu não parei para observar, que as flores nascem e crescem sem se importar com o tempo, que a natureza cumpre o seu ritual de passagem no seu devido tempo, que o dia nasce e acaba no mesmo horário, embora os homens inventem horários de verão, mas o ciclo da vida segue sem pressa o seu curso.

  Para nós do hemisfério sul o ano começa com o verão, depois o outono, inverno, a primavera e termina com os raios do verão, sempre do mesmo jeito. Nós é que por falta de tempo não observamos isso, Estamos sempre apressados e costumamos dizer: como o ano está passando rápido. Muitas vezes não vemos o crescimento de nossos filhos, das pessoas ao nosso redor, e nos esquecemos muito rápido daqueles que nos deixaram.

Existem vários dizeres populares sobre o tempo, que ele é melhor remédio, que só o tempo pode nos fazer esquecer, porém tempo perdido não se recupera, já passou. A Bíblia nos diz que há tempo para tudo, para nascer, crescer, chorar, sorrir e morrer, há tempo para tudo.

Que nesse novo ano o tempo não seja a desculpa para os insucessos, dissabores, derrotas e a própria falta de tempo.

 

                         José Geraldo da Silva

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A BELEZA DE DEUS

 
Sua criação é perfeita
 
Ao observarmos a natureza é possível perceber o quanto Deus é maravilhoso. Somente um ser supremo pode realizar obras tão grandiosas, como as belezas naturais. O vento obedece o seu comando, as águas do mar atendem aos sopros e caminham ao encontro da terra modelando as mais sublimes esculturas. Pena que o homem não perceba tudo isso e com sua ignorância não respeite a natureza, contribuindo para a sua degradação, justo ele que também é obra do Criador. Espero que essa imagem tão bela não fique apenas nos retratos, e que a mãe natureza continue modelando as mais ricas esculturas.
 
                                                                                      José Geraldo da Silva

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

HOMENAGEM A JOÃO GUIMARÃES ROSA



Amigos das palavras, brindemos a magia.

Brindemos ao lirismo, aos sonhos e a paixão.

Do mestre criador, sonhador, cantador.

Que cantou através da mineirice, saindo da mesmice.

Inventando desde o tempo da meninice, um mundo

Imaginário, revelando por meio de invencionice

Um mundão de neologismos do tamanho do sertão

Que vive no ser tão apaixonado pelo encanto, que

Vive no canto de cada canto das Gerais

Ser que sofre os seus ais por aventuras demais

Que se tornaram imortais pela pena do imortal

Recebido no eterno portal, onde só os amantes da palavra

São honrados eternizados

Brindemos, pois o mundo de Rosa é como

Magma, onde é derramado brota poesia,

Inspira a alegria e empresta ao mundo a sua lira

E nos diz: viver é muito perigoso, vige seu dotor

A gente morre é para provar que se viveu, ora mire,

Hoje a gente vive é para provar que você, mestre,

Existiu de se pegar.

Um brinde à Roseanoproesia.

 

José Geraldo da Silva

 

 

SUPREMO POETA




No princípio era a palavra

E a palavra era sem forma e vazia

Há via trevas na comunicação

E disse o supremo poeta:

Haja luz, e a escrita nasceu.

E viu que a escrita era boa

E um soneto então concebeu.

Misturou as línguas e confundiu os homens

E viu que isso era bom

E a poesia se universalizou

Depois colocou dois astros no céu

O sol para clarear e abençoar o dia,

A lua para iluminar a noite

E inspirar os poetas

Tudo isso estava bom

Mas o supremo poeta na sua ansiedade poética

Na sua paixão lírica criou o homem

Suas imagem e semelhança

E nele colocou um sopro poético,

Lirismo, paixão e alma.

E lhe disse: escreve e cria

E enche a terra de poesia

Viu que o seu poema era bom

Guardou a pena, então chorou.

 

José Geraldo da Silva

 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

VELHO CHICO





Sentado em seu lugar habitual, num banquinho da varanda que dava vista para a serra que tantas lembranças lhe trazia, estava o velho Chico. Sozinho absorto em seus pensamentos, como sempre macambuzio, só que desta vez de maneira diferente. Quem olhava notava algo estranho, não pitava seu cigarrinho, apenas fitava os olhos para o horizonte. Ninguém ousava interromper esse retiro pessoal.
Velho Chico que em outros tempos era conhecido pela sua bravura. Caboclo forjado pela natureza, a qual conhecia como a palma de sua mão. Nascido pelas mãos abençoadas de Dona Manu, uma índia velha que aprendeu o ofício, quando ainda vivia na aldeia e depois que veio para a cidade continuou ajudando a trazer ao mundo meninos e meninas. Dizem que não permitia que nenhum deles deixasse de ver a luz. Quando as mulheres se contorciam a velha cantava rezas e só parava no momento que o choro rompia o ar. Foi assim que Francisco dos Anjos veio ao mundo.
O nome do menino foi uma homenagem ao rio que cortava a região, o São Francisco, pois sua família morava em uma de suas cabeceiras, numa tapera de chão batido e coberta de sapé. Neste ambiente crescera o menino. Todos lhe chamavam de Chiquinho da Mena. Filho de João dos Anjos e Filomena Maria de Jesus. O menino era muito sabido, olhos curiosos e de tudo queria saber. Os pais diziam que seria doutor. Entretanto o destino lhe reservara outras artes. Seu pai foi assassinado por causa de uma disputa de terra e sua mãe caiu na pinga para suportar os dissabores. Seus irmãos caíram na vida e deles ele nunca mais soube notícias.
O enredo da vida do menino iria mudar bruscamente. De fazenda em fazenda trabalhava de sol a sol por comida, pouso e uns poucos trocados. O tempo passou e o menino tornou-se homem. Moldado pela força da terra e do sofrimento tornou-se duro, carrancudo, tinha pouca leitura, um capial sem estudo, que mal rabiscava umas linhas. Mas conhecia a escola da vida. Falava pouco, impunha respeito, pois aprendeu a arte das armas, jagunço tornara-se, e o mais temido daquelas passagens.
A fama de Chico Parabelo, como era conhecido, corria toda a região. Prestava serviço para os políticos e coronéis. Ninguém ousava desafiá-lo. Numa briga era exímio com a peixeira. Ao chegar a uma venda nem precisava dizer alguma coisa, todos se aquietavam. Bebia o seu trago, acendia o seu cigarro de palha e ficava fitando o horizonte. Calado como chegava, assim também saia.
Chico só não contava que seria vencido pela arma mais poderosa que possa existir, o amor. Viajando no lombo de seu cavalo deparou com a figura mais bela que havia visto. Um sorriso e um olhar hipnotizou a fera.
- Bom dia moço! Se achegue e beba água.
Assim disse Dôrinha, como era conhecida Maria das Dores, morena cor de jambo, olhos negros, cabelos longos e a boca carnuda, uma linda mulher. Meio sem graça Chico apeou de seu cavalo e foi até a bica onde se encontrava aquela que mudaria seu destino.
O cafuzu desajeitado, desarmado pela seta da paixão, falou com ela monossilabicamente:
- Dia moça!
- Donde vem? Perguntou ela.
- Das banda do veio Chico.
- Faz o quê por aqui?
- Tô de passagem.
Ela percebeu que ele não era de muita prosa. Deu-lhe água e disse o seu nome. Ela também lhe falou que andava léguas para lavar a roupa e encher as moringas d’água, pois água era muito difícil por ali. Ele não tirava os olhos dela, estava enfeitiçado, isso nunca havia acontecido. Conhecia a vida, as mulheres, mas igual a esta nunca tinha visto. O coração bruto amoleceu e sentiu pela primeira vez a sensação do medo e da fragilidade. Num ímpeto falou algo que jamais pensou em dizer:
- Moça, tu é solteira?
- Sim. Respondeu ela
- Então sobe na minha garupa, pois irei até sua casa e falarei com seus pais. Quero que seja minha mulher.
- Não tenho pai nem mãe, não. Moro com minha madrinha.
- Sobe que eu falarei com ela.
Ela pegou as trochas e as moringas e foi com ele. Calado pelo caminho viajava nas ideias. Nunca lhe passara pela cabeça arranjar mulher para fazer a vida. Assim foi pelo caminho até chegar ao vilarejo, onde morava Dôrinha. Sua madrinha estava à porta limpando feijão e a moça gritou:
- A bênção madrinha.
- Deus te abençoe filha, quem é o estranho?
- É Chico.
- Como é que ocê monta na garupa de homem que não conhece?
- Madrinha, ele quer casar comigo.
- Minha filha, que história doida é essa?
Nesse momento Chico desce do cavalo e com voz solene diz:
- É isso senhora, ela vai ser minha mulher.
A velha desconfiada manda que entrem e expliquem melhor aquela doidera. Entraram e depois de muita conversa chegaram a um entendimento.  Ela arrumou os seu pertences, que não era muito e na manhã seguinte, após receber a bênção da madrinha e com lágrimas de gratidão monta na garupa daquele que seria a razão de seus dias.
Na primeira capela que encontraram selaram o seu compromisso, com as bênçãos de Deus. Amaram-se, firmaram pacto de união e devoção. Chico deixou o passado para trás, tinha economizado dinheiro e com ele comprou uma terrinha e botou roça. Aposentou as armas, trocando-as pela enxada. Trabalhava com afinco, suava o corpo no calor do dia e de noite se refrescava nos braços da amada.
Logo veio o primeiro menino, que foi batizado de António, o Toninho do Chico. Passado algum tempo veio Sebastiana, depois João, Raimundo e Isaura. Cresceram sem conhecer o passado infame do pai. Com ele aprenderam a valorizar a terra e a vida. O pai sonhava para eles aquilo que não pôde ter, o título de doutor. Para isso trabalhava e economizava. Os filhos já estavam moços. As moças tinham pretendentes. O mais velho foi para a capital estudar, logo iria os outros.
O destino mais uma vez armava uma das suas. Dôrinha estava grávida, era o último rebento e também o seu último ato. O menino demorava para nascer, a parteira apelava para todos os santos, e nada acontecia. A mãe agonizava. Chico na sala desesperava-se e não tinha coragem de presenciar a batalha, justo ele que fora tão valente. De repente, um choro como se fosse um brado. As lágrimas lhe vieram, as pernas ficaram bambas, pois pressentia algo ruim. A parteira saiu cabisbaixa e lhe disse:
- O menino é forte e belo.
Chico estava imóvel e com a voz embargada, perguntou:
- E a minha Dôra?
A mulher respondeu com voz trêmula:
- Entre, ela tá muito fraca e quer lhe falar.
Um ar de suspense e de tristeza invadia o lugar. Algo não estava normal. A cabeça do Chico estava atordoada e não sabia o que falar. Então entrou no quarto e viu sua mulher com os olhos semicerrados, com a criança ao lado. Aproximou-se e tocou-lhe a face molhada e a beijou. Ela quase sem voz lhe disse:
- Te amei desde o momento em que te vi naquele cavalo e sabia que você seria o meu homem.
Com a voz cada vez mais enfraquecida e quase sussurrando lhe falou:
- Amor meu, cuide deste menino, ele é a minha última obra, obra do meu amor.
O valente desmoronou e deu um grito desesperado:
- Não, não, você é minha metade, sem você não viverei. Deus por que isso? Será o castigo pelos erros do passado?
Ela ainda balbuciou:
- Querido, Deus está lhe dando um presente, uma vida. Vivi com você todos os meus sonhos. Te amo, amo, amo...
Fechou os olhos e não mais abriu. Naquela tarde encerrou a cena. Ninguém conseguia dizer coisa alguma, apenas choravam. Chico ajoelhado na beira da cama, chorou sua dor e fez uma jura: faria o que havia prometido, tornaria seus filhos doutores e ao menino recém-nascido daria o seu nome.
Os anos se passaram, ele se tornou recluso. As moças casaram-se e foram morar na cidade. Os moços mais velhos se formaram e doutores se tornaram. O menino Chico cresceu e um dia também arrumou as malas cumprindo o destino que lhe fora reservado. Herdara do pai a paixão pelas armas e militar se tornou.
Agora, sentado na varanda, o enredo de sua vida, lhe veio à mente e com ele a saudade. Está fazendo oitenta e seis anos e é dia de visita, pois foi parar num asilo. Filhos, netos e bisnetos viriam lhe visitar. Ele, porém estava absorto em seus pensamentos. Vestido com o terno de festas, de repente se levanta, anda até o portão, no momento em que sua família estava chegando. Abriu, começou a andar e deu um grito, último ato de seu enredo:
- Dôrinha, flor minha, estou indo!!
Ali caia para não mais se levantar. Essa é a história do velho Chico, personagem comum de muitos enredos, que fizeram a história de nosso povo.
                                            José Geraldo da Silva